Pois bem, no primeiro dia em que pisei na instituição meu pulmão se encheu ardendo pelo medo que sentia de estar em um lugar novo,
Fui vítima de bullying durante todo o período da adolescência por não ser magra ou ter cabelos lisos e um sorriso encantador. me dirigi ao local designado com a insegurança batendo na garganta a cada passo que dava, sem ver um rosto conhecido ou simpático
onde eu moro as pessoas não são simpáticas para me orientar ou ajudar, mas não me preocupei. Ao fim da primeira semana não me sentia mais tão sozinha, fiz amigos e não precisava mais passar o tempo sozinha, então estava tudo muito bem. E assim passou o primeiro semestre, onde aprendi a beber, alisei o cabelo, emagreci, passei a me vestir um pouco melhor, me fiz outra pessoa e...
Reprovei. Pra não passar por tanta humilhação, pra não ter que ver todos indo e eu ficando, fiz o melhor que pude, mudei de curso e dei uma desculpa esfarrapada. Pronto. Minha mãe aceitou, então pra mim estava ótimo. Ao mesmo tempo em que as coisas estavam ruins na faculdade, aos finais de semana elas pareciam piores em casa... Não me envergonho hoje de dizer que meu pai era um alcoólatra e drogado, que ele tinha dupla personalidade e, muitas vezes, machucava a mim e a minha mãe. Até então, eu nunca havia trabalhado, dependia totalmente do dinheiro dos meus pais, que também nunca trabalharam,
até hoje não tenho muita certeza do que vivíamos, mas a minha família paterna tinha muita grana e, mesmo querendo, não tinha nenhuma condição de sair de casa. No mesmo ano(claro, segundo semestre e em outro curso já), conheci um cara que trabalhava na instituição e era pouca coisa mais velho do que eu, o nome dele era Danilo e trabalhava como se fosse um instrutor em uma matéria prática. Quando voltei pra casa a noite após o ballet e abri o orkut vi o pedido dele de amizade e aceitei, mas não havia um único recado, por isso logo no dia seguinte puxei assunto com ele sobre isso e assim passamos a conversar. Conversamos pessoalmente, por internet, ele me levava em casa
mesmo o caminho sendo totalmente o oposto da casa dele e me fazia rir. Nesse meio tempo me apaixonei, mas tinha medo de contar em casa, pode parecer ridículo, mas existe bullying domiciliar também e eu sofri na pele, além disso por vários outros motivos, passei a me reservar dos meus pais e da minha família, quanto menos soubessem, melhor. Então ele me pediu em namoro e eu o mantive escondido por um tempo. Quando tive coragem de contar a minha mãe, ela mandou que eu não falasse nada para o meu pai e também disse que não parecia que eu gostava desse garoto, então era melhor terminar. E eu terminei. Ele chorou com a grande mentira que inventei e eu chorei por me sentir tão suja.
Mesmo assim, no coração não se manda e, por isso, o Danilo passou seis meses inteiros atrás de mim.
Quando um não quer, dois não brigam E eu me entreguei a tudo o que não queria me entregar. Mas, nesse meio tempo, conheci outras pessoas, usei várias delas, fiquei com irmãos, instiguei, mas nunca me deitei com nenhum deles. Viajei, tive duvidas sobre quem eu era, me permiti explorar minha sexualidade e sanidade, só para provar a mim mesma quem eu era. Depois que todas as dúvidas sumiram e tive total controle do meu eu, voltei a namorar Danilo e nessa brincadeira de namorar,
mentir de ir pra casa de amigos, de dizer que ia pra aula e aparecer na casa dele, perdi minha virgindade. Veja bem, algumas pessoas tem experiências horrendas com isso, falam como foi horrível e tudo o mais... Pra mim não foi assim, ele foi gentil, carinhoso e paciente. Quando tentou a primeira vez e eu neguei, não forçou a barra, esperou que eu dissesse que estava preparada. E quando eu estive preparada, foi bom. Foi esquisito, diferente, mas não foi ruim. Fez eu me sentir segura, coisa que não sabia nem mais o que era. Naquele mesmo ano eu, Danilo e uns amigos meus
e dele também, por meu intermédio combinamos de passar o ano novo em uma casa de praia de um deles, aí bateu a complicação. As coisas entre meus pais estavam mais estranhas do que eu já tinha visto durante toda a minha vida. Falei com minha mãe o que estava planejando e combinamos que para o meu pai eu passaria ano novo com a Sarah, que era uma amiga que o inspirava um pouco de confiança. Pedi a cobertura da própria para isso e a tive sem nem questionar. Iríamos no dia 27/12 e no dia 26/12 teria o churrasco de fim de ano em meu prédio. Chamei todos os meus amigos de faculdade, toda a minha família apareceu e todos se divertiram bastante, foi quando apresentei Danilo a toda minha família. Foi no final da noite que minha mãe, discretamente me puxou para conversar e jogou a bomba na minha cabeça:
"Filha, você sabe que não amo seu pai, não é?"
"Já deu pra perceber, mãe... Você está com outro, não é?"
"Lola, como... Como você sabe?"
"Sei lá... Chute, intuição... Mas, mãe, quem é?"
Minha mãe deu uma risadinha sem graça "Você nunca vai saber"
"Só me diz que não é o Marcos"
"Porque?"
"Ah, mãe, não acredito... O Marcos, meu Deus..."
"Lola, ninguém manda no coração, entende?"
"Ok. Mãe, eu quero que você seja feliz, mais nada. Entende? Se não está feliz com meu pai, é melhor irmos embora. Vou estar do seu lado"
Mas não podíamos ir embora naquele momento. Tínhamos assuntos a resolver, não queríamos sair de mãos vazias de um lugar o qual demos o sangue e a alma para manter. Principalmente a minha mãe que passou por tanta coisa calada. Sofreu tanto sem nunca contar a ninguém por que ou o que estava acontecendo. No mesmo dia que viajei para passar o fim de ano com meus amigos, cobri minha mãe em uma viajem que ela faria com o namorado. Meu pai achava que ela estava indo viajar com a minha avó e eu confirmava isso a cada segundo que falava com ele! Minha mãe passou para me ver antes de ir, ele ia pegar o carro do meu namorado, que também estava encrencado e acobertando tudo. Não durou mais do que dois meses. O casamento da minha mãe, minha vida boa, minha faculdade. Nada durou. Logo após o fim do ano meu pai estava insuportável, cada vez mais violento, cada vez mais ofensivo. Então, durante um episódio em que ele quebrou meu computador e foi violento com minha mãe e comigo, chamei a polícia. Sim, chamei a polícia para o meu próprio pai. E ele me odiou. Eu e minha mãe saímos, Danilo foi nos buscar sem perguntar o que tinha acontecido. Não queria que ele tivesse se metido nessa briga, estava muito envergonhada e chateada, tentei larga-lo várias vezes, mas ele não quis me deixar sozinha em nem um minuto. Aquela noite fomos para a casa da minha avó, contamos toda a história, ou pelo menos uma parte dela. Era hora de se entregar a família, não tínhamos outra solução, hoje eu teria feito diferente... Na semana seguinte, meu pai não queria falar comigo ainda, alugamos uma casa. Saí da faculdade. Fiquei desnorteada. Me apeguei a única pessoa que não parecia apegada a mais ninguém: meu namorado.
Acho que meu maior errou começou aí.
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